Por Hugo Vieira

Era fevereiro de 2024 quando uma mulher de 34 anos foi nomeada para o setor financeiro da Secretaria Municipal de Cultura (Secult) de Natal. Naquele período, a campanha municipal ainda não havia começado pra valer.
A moradora da Zona Norte da capital potiguar estava feliz com o novo emprego. Segurança e estabilidade por alguns meses para ela estavam garantidos. Logo, fez amizades dentro da secretaria e se empenhava de forma dedicada.
Não sabia ela que meses depois enfrentaria alguns dos piores momentos da vida. Anos eleitorais para quem exerce cargos comissionados em órgãos públicos costumam ser de decisões, mas o que a mulher passou extrapola o direito de livre escolha, ferindo a democracia e a individualidade.
Sete meses depois, em setembro, as pressões políticas dentro da secretaria onde ela trabalhava começaram a aumentar. A mulher tinha uma posição clara: não votaria em Paulinho Freire (União Brasil) para prefeito, pois apoiava outro candidato.
Um dos sinais mais fortes desta pressão política em favor de Paulinho Freire aconteceu dentro da própria Secult. Nessa reunião, foi dito expressamente que servidores e terceirizados teriam que trabalhar na campanha de Paulinho Freire à prefeitura de Natal, caso contrário seriam demitidos ou exonerados dos cargos.
A mulher de 34 anos ouviu aquilo espantada, pois já tinha um candidato. De acordo com ela, existia dentro da secretaria uma lista com o nome dos trabalhadores que faltavam às reuniões convocadas em nome de Paulinho Freire.
As redes sociais da trabalhadora eram vigiadas por pessoas ligadas à campanha. Ela e os colegas de trabalho, segundo seu relato, teriam que publicar expressamente nas redes sociais que eram eleitores de Paulinho Freire. A situação ficou insuportável; ela começou a ter crises de ansiedade e se sentia coagida a fazer algo contra sua vontade.
Não demorou muito para que a patrulha de Paulinho Freire dentro da secretaria percebesse que não contaria com o voto da mulher. Ela então foi exonerada no final do mês de setembro, a poucos dias do primeiro turno da eleição municipal em Natal.
O depoimento da mulher é uma peça-chave da ação movida pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) que pede a cassação de Paulinho Freire, da vice-prefeita Joanna Guerra e dos vereadores Irapoã Nóbrega e Daniel Rendall. Todos são apontados por, supostamente, cometerem fraudes eleitorais como abuso de poder político e compra de votos.
O processo está paralisado no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN), aguardando decisão sobre um recurso apresentado pela defesa dos réus.
Hoje, aos 35 anos, a mulher vítima de pressão política faz acompanhamento psicológico e toma remédios quando sofre com as crises de ansiedade. Por respeito, a reportagem não a identificou, mas ela deixou um recado claro:
“Foi um crime que eles cometeram contra várias pessoas. Espero que eles paguem.”


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